quarta-feira, 23 de março de 2011

No Paraguai, o rei da soja é brasileiro

Com fazendas em 13 dos 17 estados paraguaios, Favero é o maior dos produtores brasiguaios, responsáveis por 90% da soja do país

Corria o ano de 1965 e Tranquilo Favero foi convidado por uma dupla de amigos médicos a fazer um passeio: atravessar a recém-inaugurada Ponte da Amizade, que liga a cidade de Foz do Iguaçu, no Brasil, a Ciudad del Este, no Paraguai. Quando chegou ao país vizinho, ficou encantado com a imensidão de terras boas para o cultivo. “Nasci e me criei na terra, não precisava nem fazer análise para saber que naquele mundo verde que vi do outro lado da fronteira cresceria de tudo”, conta.

Os amigos voltaram da viagem, mas Favero ficou por 60 dias, de olho nas possibilidades que vislumbrava. “Comprei um carro para visitar a região, e comprei as primeiras terras”, diz. Foi um golpe certeiro. Aos 72 anos, modos simples e tereré (bebida típica semelhante a um chimarrão gelado) nas mãos, Favero é conhecido internacionalmente como o rei da soja no Paraguai.

“Os brasileiros podem se orgulhar do crescimento do Paraguai no ano passado”, diz, em seu escritório novinho, na avenida que leva ao aeroporto. O do centro estava ficando pequeno e há pouco a empresa mudou de endereço. Segundo Favero, 80% do crescimento do Paraguai veio da exportação de grãos e carne. Desse porcentual, 90% dos grãos são produzidos pelos “brasiguaios”.

Império da soja

Favero tem nove empresas, todas ligadas ao agronegócio. “Desde pequeno, quando não tinha nada e minha família era pobre, pensava em produzir alimentos”, afirma. “Roupa, sapato, carro são supérfluos, mas até a rainha da Inglaterra tem de comer todo dia.”

Louco por trabalho, diz que tem jornada de 15 horas diárias e é o estraga-prazeres da família quando o assunto é férias. “Quer me castigar, me chama para ir para a praia” afirma, rindo. Seu império tem 40 mil hectares de terras cultivadas, 40 mil cabeças de gado, 1,5 mil funcionários diretos e 5 mil indiretos. Possui terras em 13 dos 17 departamentos (estados) paraguaios.

Os números podem ser pequenos quando comparados ao maior produtor de soja do Brasil, Blairo Maggi, com seus mais de 160 mil hectares de soja. Mas lhe garantem domínio no país vizinho. Para safra paraguaia de 2011, que começa a ser colhida em breve, é esperada a produção de 8 milhões de toneladas. No Brasil, apenas as exportações chegaram a quase 50 milhões de toneladas, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), alta de 5,5% sobre o ano anterior.

“Mas precisa lembrar que o Paraguai é o maior produtor de soja per capita do mundo”, faz questão de frisar Favero. Em suas contas, a produção paraguaia é de cerca de 1,3 tonelada por pessoa. No Brasil, é de 0,3 tonelada. Do total paraguaio, Favero espera produzir 120 mil toneladas. Na safra passada, foram 90 mil toneladas.

De olho na China

Favero, que se diz interessado em ouvir e aprender, tem agora voltado seus olhos para a China. Pretende abrir um pequeno escritório de representação em território chinês este ano e quer uma filial maior naquele país em 2012. Hoje, ele vende para multinacionais. Com a filial na China, pretende eliminar intermediários. "Talvez eu monte também uma empresa no Brasil para exportar carne” diz, sem dar mais detalhes.

Enquanto conversa, Favero fica de olho em uma televisão gigante instalada em seu escritório, ligada todo o tempo no mapa meteorológico do Weather Channel (canal do tempo). Diz: “vai chover bastante esse ano, isso é muito bom”. Durante a entrevista, é interrompido algumas vezes por funcionários ou por um de seus netos, que estava na região de Alto Paraná visitando umas terras. Pergunta se chove, se faz sol, como estão as plantações.

O rei da soja do Paraguai tem três filhas. Todas moram no Brasil e nenhuma seguiu os caminhos do pai. Com ele, trabalham dois dos três netos homens (há mais três mulheres), um deles é economista e, o outro, engenheiro agrônomo. Há pouco parentes em volta porque, diz ele, não é muito bom colocar muita família nos negócios. “Se um funcionário não trabalha direito, posso mandar embora. Agora, se é da família...”

Meu pai nasceu no oceano

A saga de Favero começou na Italia, quando seus avós deixaram um país que passava dificuldades para tentar a sorte em outro lugar. Sua avó estava grávida e seu pai nasceu no navio, três dias antes da chegada a Porto Alegre (RS). O filho Tranquilo nasceu em Videira (SC) e estava na pequena Chupinzinho, no Paraná, quando recebeu o convite para viajar ao Paraguai.

“Naquela época, 10 mil hectares no Paraguai equivaliam a 100 hectares no Paraná”, diz. Ele conta que foi devagar, com medo das ditaduras do país vizinho, de instabilidades. “Conforme o tempo passava, eu via que o bicho não era tão feio.” Foi ficando tão bonito até que Favero vendeu o que tinha no Brasil e se mudou de vez. Naturalizou-se paraguaio há 22 anos.

IG Economia

terça-feira, 22 de março de 2011

Adubo biológico melhora aproveitamento de fósforo e custa até 30% menos que o industrial

As lavouras de soja e milho de Santa Catarina se mantêm entre as melhores do país neste ano, poupadas pelas secas do La Niña e com avanço em produtividade. Os 460 mil hectares dedicados à oleaginosa e os 570 mil cobertos pelo cereal ultrapassam marcas próximas de 3 mil e 4,5 mil quilos por hectare, respectivamente, neste início de colheita. A renda na região também fica acima da obtida em outros centros produtores, uma vez que boa parte dos agricultores recebe bônus de cerca de 8% por ter a soja selecionada como semente. Para ampliar suas vantagens, o estado reduz custos. Em Campos Novos, na cabeceira do oeste agrícola, a Copercampos amplia a produção de fertilizante “vivo” a partir de cama de aviário, produto até 30% mais barato que o adubo químico.
O chamado Biocoper tem micro-organismos que agem no solo melhorando o aproveitamento do fósforo, afirma o agrônomo Marcelo Capelari. “Normal­mente, 80% do fósforo se perde. Com a ação dos fungos, 80% são aproveitados”, compara.
 

Diretor da Copercampos, Laerte Thibes mostra adubo “sem cheiro”
Lançado na safra passada, o produto vem apresentando os mesmos resultados que o adubo industrial, dizem os produtores. “A vantagem é o custo”, afirma o agricultor Márcio Wagner, que passou a utilizar o produto em 100% da área de cultivo. Ele planta 350 hectares de soja e está colhendo 3,6 mil quilos por hectare. Em 50 hectares de milho, o rendimento é de 8,4 mil kg/ha.
A fama do Biocoper leva a Campos Novos representantes de cooperativas do Paraná e de outros estados. A Copercampos planeja dobrar a produção de 5 mil para 10 mil toneladas ao ano e, em seguinda, duplicar a planta industrial, conta o responsável pela indústria, Edilson Moreira.
“O que fazemos aqui não é inédito. O que é novo é a aplicação dessa tecnologia na produção de grãos”, afirma o diretor-executivo da Copercampos, Laerte Thibes. A empresa investiu R$ 10 milhões na indústria de fertilizantes.
Os micro-organismos são comprados do Instituto de Fosfato Biológico, de Goiânia (GO). O fertilizante é composto ainda de cama aviária – que reveste os criadouros de aves e contém restos de ração e esterco – e rocha fosfática, misturados ao ar livre. Após a secagem industrial, o pó resultante não tem cheiro de esterco e recebe fécula de mandioca para ficar granulado.
A produção e a rentabilidade são animadoras em Santa Catarina, avalia a economista Gilda Bozza, que viajou com a Expedição Safra pela região na última semana. A Copercampos prevê avanço de 3,4 mil para 3,6 mil quilos por hectare na produtividade da soja e de 8,4 mil para cerca de 10 mil quilos por hectare no milho. No Oeste do estado, a cooperativa C. Vale informa que a média deve se manter entre 3,3 mil quilos e 9,6 mil quilos por hectare, respectivamente, com avanços pontuais.

José Rocher

Transporte da safra do Centro-Oeste até o porto custa quatro vezes mais que na Argentina

Brasília - Os custos logísticos são o principal problema da agricultura brasileira em comparação com outros grandes produtores do continente. Segundo o economista Luiz Antônio Fayet, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os produtores são eficientes, mas há uma discrepância “da porteira para fora”. Fayet disse que, segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), a média de gastos com logística no Brasil, principalmente no transporte da produção até o porto, foi de US$ 84 por tonelada de soja em 2009. Nos Estados Unidos, o custo médio foi de US$ 21 e, na Argentina, de US$ 23.
“Se tivéssemos os custos dos Estados Unidos, os produtores poderiam ganhar cerca de R$ 6 a mais por saca”, afirmou Fayet. Esse valor representa aproximadamente 15% do preço da saca em Mato Grosso, um dos estados produtores mais afetados pelos problemas logísticos do país. Em Rondonópolis, um dos municípios matogrossenses com maior produção, a saca de 60 quilos está sendo vendida por R$ 42.
Para solucionar o problema, segundo o presidente da Câmara de Infraestrutura e Logística do Agronegócio, José Torres de Melo, é preciso resolver o “colapso dos portos brasileiros, que não têm condições de exportar a safra”. Ele disse que a prioridade devem ser os portos das regiões Norte e Nordeste. “Se conseguirmos exportar por lá, vamos desafogar o Sul e o Sudeste”, afirmou. O problema é que a situação desses portos é ruim: “É chocante que no Porto de Belém a capacidade de exportação seja zero e que Itaqui [em São Luís, Maranhão] esteja desde 1992 da mesma forma".
Escoando pelos portos do Norte do país, os produtores de Mato Grosso, por exemplo, estado com a maior produção nacional de grãos, poderiam reduzir pela metade a necessidade de transporte terrestre. Atualmente, a produção viaja cerca 2 mil quilômetros antes de ser embarcada nos navios graneleiros. Segundo Fayet, as regiões Sul e Sudeste produzem menos soja e milho do que consomem. Mesmo assim, os portos dessas regiões escoam mais de 80% da produção nacional.

Danilo Macedo
Repórter da Agência Brasil
Edição: Vinicius Doria

UnB desenvolve fórmula matemática que reduz em 43% risco de contaminação da água por uso de pesticida

Brasília – O Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB) criou uma fórmula matemática que permite aos produtores rurais reduzirem em até 42,7% os riscos de contaminação da água por causa do uso de pesticidas. A aplicação da equação é útil, por exemplo, para a avaliar o perigo de contaminação do lençol freático que irriga as bacias de abastecimento das cidades.
A equação foi criada após pesquisa de campo em cinco lavouras de culturas diferentes na Bacia do Ribeirão Pipiripau, no Distrito Federal, que abastece a população da cidade-satélite de Planaltina, a cerca de 40 quilômetros do Plano Piloto. A pesquisa ainda não foi publicada.
O modelo matemático, chamado Modelo de Avaliação e Manejo do Risco de Contaminação da Água por Pesticidas (Arca), calcula o risco de contaminação ao multiplicar os índices de vulnerabilidade dos recursos hídricos à contaminação (por causa da distância em relação à lavoura, composição do solo e ao manejo de plantio) pelo índice do potencial de contaminação dos produtos químicos usados (mobilidade, persistência e toxidade do inseticida, herbicida ou fungicida).
De acordo com o pesquisador responsável pelo estudo, Henrique Chaves, qualquer agricultor pode calcular os eventuais riscos de contaminação. “Ele vai ver em quanto foi reduzido o risco de contaminação, substituindo produtos mais tóxicos, móveis ou mais persistentes”. Segundo Chaves, por causa de sua atividade os produtores rurais conhecem as informações que compõem o índice de vulnerabilidade e podem saber o efeito dos princípios ativos dos pesticidas no meio ambiente com base nos dados registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
“No futuro, a gente poderá listar na internet todos os produtos licenciados no Brasil com o respectivo potencial de contaminação”, prevê o pesquisador ao salientar que, ao calcular o risco não significa que a contaminação ocorra de fato, ou que se possa concluir que os pesticidas estão “bem menos agressivos que no passado”.
Conforme o pesquisador, o modelo matemático serve para orientar o agricultor e evita a necessidade de tratamento futuro da água. “Uma vez que chega na água [o pesticida], é muito difícil retirá-lo por meio dos tratamentos convencionais que temos no Brasil, como, por exemplo, a purificação de água nas estações de tratamento”.
Para incentivar inovações que preservem os corpos hídricos, a Agência Nacional de Águas (ANA) mantém, em dez estados, o Programa Produtor de Água para pagamento de serviços ambientais. Atualmente, o programa apoia, orienta e certifica projetos que visem à redução da erosão e do assoreamento de mananciais no meio rural.
Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil
Edição: Lana Cristina

Governador afirma que o Iapar voltará a ser referência nacional em pesquisas

.O governador Beto Richa disse nesta sexta-feira (18), em Londrina, que o governo fará investimentos para que o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) volte a ser referência nacional em pesquisa e inovação tecnológica. Richa visitou a sede do Iapar acompanhado do secretário de Agricultura, Norberto Ortigara, e do presidente do instituto, Florindo Dalberto. “Asssumimos um compromisso com os servidores e com o presidente do Iapar de investir para que o instituto recupere o papel de destaque que teve no passado”, afirmou.

O governador conheceu os laboratórios de sementes e de biotecnologia vegetal, onde são desenvolvidas pesquisas voltadas à melhoria de culturas como café, cítricos e cana-de-açúcar, entre outros produtos agrícolas. Richa disse que nos últimos anos o Iapar não mereceu a atenção devida do governo e que possui quadros técnicos de pesquisadores que estão entre os melhores do País e que são responsáveis por muitas inovações tecnológicas.

“Os funcionários contam que durante o governo José Richa o Iapar estava bem estruturado, tinha os recursos necessários para investir em tecnologia, inovação e pesquisa, o que é fundamental para o fortalecimento da nossa agricultura. Nós traremos esse apoio de volta”, afirmou o governador.

Florindo Dalberto disse que a visita foi fundamental para o governador se aprofundar sobre o que representa e tem representado historicamente a tecnologia no suporte ao desenvolvimento da agricultura do Estado. Segundo ele, o Iapar tem toda uma trajetória de resultados e Beto Richa pôde comprovar isso visitando os laboratórios, conversando com os pesquisadores, e conferindo a sua infraestrutura. “O governador verificou que o Iapar pode contribuir nas áreas de ponta como a biotecnologia, a bioenergia, o grande potencial que a instituição tem para dar e, mais do que tudo, ele colocou na sua pauta de preocupações e ações a questão da pesquisa, da tecnologia, da inovação, que aliás está muito presente em seu plano de governo”, afirmou.

Entre as pesquisas em andamento no Iapar no momento estão o desenvolvimento de plantas resistentes ao cancro cítrico; de espécies de cana com maior tolerância à seca; e de um tipo de café com controle maior da maturação, permitindo colheita de frutos mais uniformes e aumentando a qualidade da bebida. “Somos a primeira instituição no País a desenvolver essa tecnologia”, explicou a bióloga Sandra Bellodi.


segunda-feira, 21 de março de 2011

Bons preços, desempenho recorde

Produtores paranaenses que apostaram no milho na safra de verão podem comemorar: valor da commodity subiu quase 80% em menos de oito meses

O produtor paranaense que apostou no plantio de milho no ano passado para a safra de verão já pode comemorar. Os preços da commodity que estavam numa média de R$ 13 a saca, em julho de 2010, subiram quase 80% em menos de oito meses, chegando no seu auge em fevereiro passado, atingindo R$ 22,34. Para ajudar, as condições climáticas foram perfeitas para o grão - com chuvas abundantes - o que deve fazer com que a produtividade bata o recorde da safra passada, que girou em torno de 7,6 mil quilos por hectare. Entretanto, dados do Departamento de Economia Rural da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab/Deral), apontam uma redução significativa na área de plantio do grão no Estado. A área que girava em torno de 896 mil hectares na safra 2009/2010 passou a 735 mil hectares, uma queda de 18%. ''É a menor área plantada desde a década de 1960.Isso aconteceu basicamente pelo ambiente de preços em meados do ano passado, que estavam muito baixos. A produção desta safra deve ficar em torno de 5,39 milhões de toneladas, ou um pouco acima disso. Uma queda de pelo menos 21% na produção'', calcula Margorete Demarchi, engenheira agrônoma do Deral.
Outro fator que foi decisivo para que os produtores não plantassem milho verão foi a expectativa da seca trazida pelo fator La NiÀa, que acabou não acontecendo. O índice pluviométrico foi elevado, o que otimiza a produtividade consideravelmente. ''A média (de produtividade) girava em torno de cinco a seis mil quilos por hectare. Na safra passada, ficou acima de sete mil quilos por hectare e deve ser ultrapassada este ano. Quem apostou na cultura, vai acabar se dando bem, já que nada sinaliza queda de preço nos próximos meses'', avalia Margorete. ''32% da safra foi colhida. Está um pouco atrasada, isso devido ao excesso de chuvas e também porque os produtores que também plantam soja deram prioridade para a oleaginosa, que é um pouco mais vulnerável'', complementa. Dentre os fatores que justificam essa ascensão de produtividade está a utilização das sementes transgênicas (que hoje representam 70% da produção do Paraná), além do manejo e adubação de solo adequada. ''Os preços têm que estar bons, já que as sementes representam uma média de 45% do custo de produção do milho, contra 25% de tempos atrás. O maior impacto para a produção está nas sementes e adubação de cobertura'', avalia Irineu Baptista, gerente técnico da cooperativa Integrada. Pedro Chioga, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), salienta que para bons resultados com o milho é fundamental o plantio das cultivares corretas. ''Isso depois vai auxiliar no controle de pragas e doenças, principalmente a lagarta do cartucho. Não vai ser surpresa se atingirmos de 170 a 200 sacas por hectare, a evolução tecnológica é muito grande'', finaliza o especialista.

Folha Web
Autor: Victor Lopes